Um dia 'ela ' descobriu o tempo e espaço. Ela descobriu o mundo e aprendeu a entender as coisas. Nesse dia ela fingiu não sentir mais medo. medo de sujar a roupa e de bicho papão.
Seu olhar mudou.
Ela aprendeu a cantar sem saber a letra, falar inglês sem saber verbos irregulares. Que bibliotecas escondem os maiores segredos do mundo. Que um texto bobo pode falar muito a respeito das pessoas que escreveram. Que pessoas que falam dos outros é porque não aprenderam essas coisas. E que ela podia dar-se ao trabalho de ensinar, mas aprendeu a se preocupar com o essencial e só cada um pode aprender essas coisas do seu próprio jeito. Aprendeu falar com gente estranha. Sempre, todo dia. Contar as cores que o por do sol tem, não atender telefonemas quando não quer falar. Aprendeu a provar sempre um sabor novo de sorvete. Cozinhar qualquer receita. Inventar as suas próprias. Aprendeu anotar coisas em guardanapos. Se olhar no reflexo do oculos escuros dos outros.
Aprendeu a conversar na calçada de madrugada, a gostar de cores e de preto e branco. Ler livros sérios e as maiores bobagens da internet. Ver filme de monstro pra dar risada .
Aprendeu a andar sozinha, pagar as contas em dias, sorrir, fazer desenhos, dar inuteis conselhos, jogar videogame, ser amiga, ser amante, pintar a unha do pé de verde, andar devagar na chuva.
Sou interessante. [ Eu me acho, isso me basta!] Quando saio pelas ruas, alguns me olham feio, porém outros me admiram. Querem me pegar - fujo. E, mesmo com meu total silêncio, acabo arrumando briga. Incomodo por existir. Não escondo quando estou feliz: meu corpo me entrega, soltando sua particular melodia Me dou bem com loucos. Meus olhos não tão pequenos passam o dia admirando os estranhos corpos que se movimentam pelo espaço. O que fazem dentro do que é meu? Sou a dona do tempo. Faço o que quiser com ele. Sou a verdadeira filha de Deus. Sou da vida. Gosto de sol, gosto de estantes, de papel, de livros, gosto de coisas eternas: sou tão viva que sei, talvez eu sinta que tenho sete vidas pela frente. A janela é um abismo? Sentada na calçada, olhando a rua, o nada, sinto imenso desprezo e desejo por tudo isso. Porque sou oito, sou oitenta. Meu corpo sentado tem a forma deste número. Sou uma e mais sete ocupando o mesmo espaço. Por isso nem sempre me aguentam em minha insuportável leveza. Sou bonita, pelo menos me acho! Jamais causarei indiferença em uma pesssoa. Sou curiosa e, ao contrário do que dizem, a curiosidade não me mata: me faz viver sou sem-vergonha. Uma vez fugi de casa e voltei toda revoltada. Sou especial. Minha especialidade é sobreviver. Eu, pela minha natureza, terei que tentar agora seis vezes - oh, como é cansativo morrer. Por isso permaneço viva. Porque durmo sem precisar de remédios?! sei não! Porque enxergo no escuro? porque brinco com 'eles'? Não é por crueldade, mas para que 'eles' assim como eu vivam bons momentos. E sabe como é, viver demora , e preciso me divertir . Pularei, cairei, me fingirei de coitada, me afastarei dos abismos e dos acidentes feios . E logo depois darei uma espreguiçada e um bocejo. Amanhã será mais um dia como outro qualquer, mais um daqueles dias em que o tédio não me derrotará.